Elite do crime volta a João Pessoa
Segunda, 23 de Janeiro de 2012 10h14
Priscylla Meira
E-mail: priscyllameira.pb@dabr.com.br
Oito detentos da Paraíba, que estão presos no Presídio Federal de Porto Velho, no Estado de Rondônia, e são considerados de alta periculosidade para a sociedade, vão retornar para solo paraibano até o início de março. Após dois anos de reclusão pelo Departamento de Penitenciária Nacional (DPN), o prazo de permanência na unidade de segurança máxima venceu e os integrantes da elite do crime na Paraíba serão trazidos de volta, através de um forte esquema de segurança, para unidades prisionais do Estado.
O retorno dos presos - líderes de facções criminosas, que comandavam, mesmo trancafiados em presídios na Paraíba, uma série de homicídios, sequestros, roubos e tráfico de drogas - vem provocando frisson entre autoridades e nas comunidades onde eles costumavam agir, pois a volta dos antigos líderes pode gerar confrontos com os novos gerentes, que podem não querer abrir mão do comando no tráfico de drogas e nos grupos de extermínio que atuam na Paraíba.
O grande desafio a ser encarado pela Secretaria de Estado da Administração Penitenciária será o de enrijecer o sistema prisional e evitar o retorno destes presidiários às lideranças do crime organizado. "O prazo está se encerrando e eles terão que voltar. Agora, o Estado terá que gerenciar bem esse retorno e, além de reforçar a segurança, precisa garantir o respeito e a dignidade desses detentos", afirmou o coordenador Estadual da Pastoral na Paraíba, Pe. João Bosco.
Até o início de março, devem embarcar de volta para João Pessoa os presos Darcton Lima do Carmo (Anderson Pitbull), Thanner Yabesch Asfora (Tande Asfora), Francisco Soares Padilha Neto (Padilha), Gino de Souza Nazário, Heliomar da Costa Cruz (Sargento Leomar), Genildo Fábio Crispim (Pinino), Edvan Pedro dos Santos e Aldenir Cirino de Sá.
O secretário de Estado da Administração Penitenciária, Harrison Targino, disse que não irá se pronunciar sobre o retorno dos presos paraibanos que estão em Porto Velho. "Não nos pronunciamos sobre assuntos reservados, como a transferência de presos, para não criar tensões na sociedade. Quando realizamos transferências de presos, não há aviso prévio", argumentou.
Um relatório elaborado pela Polícia Federal e pelo Ministério Público da Paraíba em 2010, na época da transferência destes presos, constatou a fragilidade do sistema prisional e destacou que as penitenciárias na Paraíba "não tem condições de abrigar marginais da envergadura dos que atualmente mantém em custódia".
Num dos trechos do documento, a PF revela que, "com as facilidades e o poder de que dispõem, em conjunto ou isoladamente, será questão de tempo a mobilização desses criminosos no sentido de planejarem rebeliões em série, resgate de presos e outras medidas que colocarão em risco os estabelecimentos prisionais, os demais presos e, principalmente, a população paraibana".
Pinino comanda tráfico de drogas
Pinino comanda tráfico de drogas
Um dos nomes mais temidos entre os presos que devem retornar de Rondônia para a Paraíbna é o do preso Genildo Fábio Crispim, 33. Pinino, como é mais conhecido, é considerado um dos maiores chefes da facção criminosa Al Qaeda, que comanda a compra e venda de entorpecentes em praticamente todas as comunidades de João Pessoa. A prisão não impediu que Pinino continuasse arquitetando e manipulando "soldados" do crime para cometer homicídios do lado de fora das grades, através do uso de celulares dentro das celas.
A conivência de pessoas ligadas aos presídios e a liberdade que Pinino encontrava para agir provocou sua transferência para o Presídio Federal de Campo Grande - MT, em abril de 2007 e para o Presídio Federal de Porto Velho-RO, em março de 2008. A mudança engessou o poder de articulação do criminoso, mas não diminuiu a influência da Al Qaeda nas periferias de João Pessoa.
Pinino deixou um substituto à sua altura e a facção ganhou ainda mais força sob o comando de André Quirino da Silva, 28, o Fão, que também precisou ser transferido para o presídio federal, em junho do ano passado. Assim como Pinino, Fão também treinou gerentes para trabalharem na compra e venda de drogas, cada um atuando em uma área distinta da cidade e promovendo o terror nas comunidades invadidas pelo tráfico.
Apesar da iminência de um confronto entre novos e antigos líderes, o titular da Delegacia Especializada de Repressão a Entorpecentes, Allán Murilo Terruel, acredita que possíveis confrontos provocados pelos gerentes que assumiram o tráfico de drogas desde a transferência destes presos, em 2010, devem sucumbir diante da influência dos líderes que estarão de volta. "Há uma hierarquia muito forte entre eles e esse intervalo de dois anos no comando não deve impedir que eles retornem aos seus postos, articulando ações criminosas através de celulares, de dentro dos presídios", disse.
No ano de 2011, a DRE conseguiu desestabilizar quadrilhas e realizou a maior apreensão de drogas registrada na Paraíba, evitando a distribuição de 35Kg de pasta base de cocaína, avaliada em R$ 1,7 milhão, mas que, após refinada e 'batizada' com outros produtos, deveria render pelo menos R$ 3,5 milhões após a revenda. Apesar dos esforços para prender os traficantes, a polícia constata que o tráfico não cessa após a prisão. "A volta destes presos preocupa porque sabemos que há conivência dentro dos presídios e estes traficantes devem retomar poder de articulação, mesmo dentro de celas", afirmou.
Facilidades
O relatório elaborado pela Polícia Federal e pelo Ministério Público da Paraíba em 2010, confirma o poder e a influência que os detentos adquirem dentro do sistema prisional do Estado. "As investigações demonstram que boa parte do sucesso das empreitadas criminosas se deve às facilidades existentes no sistema carcerário da Paraíba, que permite que alguns presos, que em tese deveriam se considerar fora de atividade enquanto recolhidos, mantenham em funcionamento as suas organizações", consta no documento.
De acordo com as investigações, realizadas também através de interceptações telefônicas autorizadas pela Justiça, a Delegacia de Repressão a Entorpecentes da Polícia Federal constatou a deficiência do sistema prisional da Paraíba, que não consegue coibir a articulação de crimes dentro dos presídios.
Devem voltar para unidades prisionais da PB:
Devem voltar para unidades prisionais da PB:
Darcton Lima do Carmo: Tem 31 anos e é conhecido como "Anderson Pitbull". Assaltante, latrocida, traficante, é apontado como o homem que mandou matar uma família que fazia oposição a ele no tráfico de drogas, em João Pessoa. Dartcon fez parte ainda de uma extensa e bem estruturada organização criminosa, composta por vários indivíduos egressos do sistema penitenciário local, que promovia a distribuição e comercialização de substâncias entorpecentes na Região Metropolitana de Natal - RN.
Francisco Soares Padilha Neto: O "Padilha". Tem 35 anos, é latrocida, participou de uma tentativa de fuga e tiroteio com policiais militares no Presídio de Segurança Máxima Criminalista Geraldo Gomes Beltrão, em Jacarapé. Antes de ser transferido para o Presídio Federal de Porto Velho - RO, foi transferido para o Presídio Federal do Campo Grande-MT, em 2008.
Genildo Fábio Crispim: Pinino, como é chamado, tem 33 anos e é um dos principais líderes da facção criminosa Al Qaeda, que domina o tráfico de drogas em João Pessoa. Foi preso por assalto e também apontado como autor de vários homicídios na Capital paraibana.
Thaner Yasbech Asfora: Filho do ex-governador Raimundo Asfora, eleito em 1987. Tem 33 anos, foi preso acusado de envolvimento com o tráfico de drogas e é apontado como um dos fundadores de um grupo de extermínio na Paraíba. Considerado pelo Ministério da Justiça como um elemento de "altíssima periculosidade". Assim como Pinino e Padilho, também foi transferido para o presídio federal de Campo Grande.
Gino de Souza Nazário: Cearense, mais conhecido como "General", tem 40 anos e foi preso acusado de roubo qualificado e de tráfico de fronteiras. No final de 2007, o delegado Allan Murilo Terrual, que atuava na Comarca de Sapé, prendeu uma quadrilha e conseguiu evitar o sequestro de um empresário, que estava sendo arquitetado por Gino, preso na Penitenciária de Segurança Máxima Geraldo Beltrão, em João Pessoa.
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Foto: Ovídio Carvalho/ON/D.A Press
Thanner Asfora, de 33 anos, é apontado como um dos fundadores de um grupo de extermínio na Paraíba
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